A inteligência artificial passou a fazer parte da rotina de diferentes profissões no Brasil. Ferramentas capazes de produzir textos, analisar dados, criar imagens, automatizar tarefas e auxiliar na tomada de decisões estão sendo utilizadas por empresas de diferentes áreas.
Esse avanço provoca mudanças no mercado de trabalho, tanto pela criação de novas funções quanto pela transformação das atividades realizadas pelos trabalhadores.
O tema ganhou espaço nas últimas semanas. Em 16 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a criação de regras internacionais para a inteligência artificial e afirmou que o Brasil precisa desenvolver sua própria tecnologia e formar profissionais para atuar no setor.
Nesta terça-feira (22), durante discurso na Assembleia Geral da ONU, Lula voltou a abordar a necessidade de regulamentação da inteligência artificial e de proteção dos usuários no ambiente digital.
Dados da pesquisa TIC Empresas, realizada pelo http://Cetic.br , mostram que a proporção de empresas brasileiras que utilizavam inteligência artificial passou de 13% em 2024 para 17% em 2025.
Entre as grandes empresas, a adoção aumentou de 38% para 50% no mesmo período.
Na prática, a tecnologia pode ser utilizada para automatizar tarefas repetitivas, organizar informações, produzir conteúdos, analisar documentos, atender clientes e auxiliar equipes em atividades que antes demandavam mais tempo.
Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), publicado em 2026, aponta que o avanço da inteligência artificial generativa está relacionado principalmente à transformação do conteúdo das ocupações.
No terceiro trimestre de 2025, cerca de 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. O número correspondia a 29,6% da população ocupada.
O estudo também aponta que aproximadamente 5,2 milhões de trabalhadores estavam no nível mais elevado de exposição. Entre os grupos mais expostos estavam mulheres, jovens, pessoas com maior escolaridade e trabalhadores do setor de serviços, especialmente nas áreas de informação e comunicação e serviços financeiros.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) destaca que a exposição de uma ocupação à inteligência artificial não significa, automaticamente, uma previsão de perda de emprego. Segundo a entidade, na maioria dos casos, a tendência é de transformação das atividades, com manutenção da participação humana.
Ao mesmo tempo em que algumas tarefas podem ser automatizadas, cresce a procura por profissionais capazes de desenvolver e aplicar inteligência artificial.
Um levantamento do LinkedIn sobre os empregos em alta em 2026 colocou o cargo de engenheiro de IA no primeiro lugar da lista dos 25 cargos que mais cresceram no Brasil nos últimos três anos.
As mudanças também atingem profissionais que não trabalham diretamente com tecnologia. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que empresas brasileiras esperam crescimento de funções relacionadas à transformação digital, inteligência artificial e aprendizado de máquina.
O levantamento também indica que quase nove em cada dez empresas brasileiras planejam investir na qualificação dos próprios trabalhadores nos próximos cinco anos.
Entre as habilidades que devem ganhar espaço estão inteligência artificial, análise de grandes volumes de dados, pensamento criativo e conhecimento tecnológico. Competências como empatia, escuta ativa, flexibilidade, curiosidade e aprendizado contínuo também aparecem entre as capacidades que as empresas esperam valorizar cada vez mais.
A transformação tecnológica também representa um desafio para jovens e profissionais em início de carreira. Algumas atividades tradicionalmente utilizadas como porta de entrada no mercado, principalmente tarefas administrativas e operacionais, podem ser parcialmente automatizadas.
Por outro lado, a inteligência artificial cria novas possibilidades de trabalho e aumenta a necessidade de profissionais capazes de supervisionar resultados, interpretar informações, tomar decisões e utilizar as ferramentas de forma adequada.
Um levantamento da PwC divulgado em agosto de 2026 mostrou que, no Brasil, a contratação de profissionais com competências relacionadas à inteligência artificial quase triplicou entre 2024 e 2025.
Segundo a análise, baseada em mais de um bilhão de anúncios de vagas em diferentes países, a participação dessas vagas no mercado brasileiro passou de 1,1% para 3,6%.
A percepção da população ainda é marcada pela preocupação com os efeitos da tecnologia. Uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada no Brasil em setembro de 2026, mostrou que 52% dos brasileiros entrevistados disseram estar mais preocupados do que entusiasmados com o avanço da inteligência artificial.
Além disso, 42% afirmaram acreditar que a tecnologia deverá reduzir o número de empregos nos próximos 20 anos. A pesquisa ouviu mais de 42 mil pessoas em 36 países entre fevereiro e maio de 2026.
Nesse cenário, a formação profissional ganha importância. O governo federal incluiu capacitação e requalificação entre os objetivos do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028.
O plano inclui ações voltadas à formação de profissionais e à preparação dos trabalhadores para as mudanças provocadas pela tecnologia.
Em junho deste ano, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também anunciou um programa de Residência em TICs, com investimento de R$ 129 milhões e previsão de formação de quase seis mil profissionais em inteligência artificial.
A relação entre inteligência artificial e mercado de trabalho envolve, portanto, mudanças nas tarefas realizadas dentro das profissões, criação de novas funções e maior necessidade de qualificação.
Os efeitos ainda variam entre as diferentes áreas. Os dados apresentados apontam para uma presença crescente da tecnologia na rotina profissional, ao mesmo tempo em que habilidades como pensamento crítico, criatividade, comunicação e capacidade de aprendizado contínuo permanecem entre as capacidades necessárias para acompanhar essas mudanças.