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Imagem: Agência Brasil
Apostas online ganham espaço entre jovens e aumentam risco de dependência
Especialistas alertam para a vulnerabilidade de adolescentes ao acesso facilitado às plataformas de apostas
Por Redação
21 de Setembro de 2026 às 10:13
O número de jovens que procuram ajuda para deixar a dependência de apostas online tem aumentado, segundo Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, grupo de apoio a pessoas com problemas relacionados a jogos.
De acordo com ele, adolescentes a partir dos 14 anos já chegam ao grupo em busca de ajuda. Também são frequentes casos de jovens de 15, 16, 19 e 20 anos, além de pessoas com até 35 anos.
“Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos", conta ele.
Um dos casos é o de Gustavo Pereira, que começou a apostar pela internet aos 18 anos. Hoje, aos 24, ele calcula ter perdido cerca de meio milhão de reais durante seis anos de compulsão por apostas.
“Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro, na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância", diz o jovem.
Há cerca de dois meses sem apostar, Gustavo tenta reconstruir a vida vendendo café nas ruas de Lages, em Santa Catarina. Ele também mantém um perfil nas redes sociais onde compartilha o trabalho e relatos sobre o processo para superar o vício e evitar recaídas.
“Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressão, uma síndrome do pânico, e graças a Deus eu me libertei disso. Hoje vendo café na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, à minha fé, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu propósito de vida é ajudar pessoas”, relata Gustavo.
Especialistas apontam que o acesso às plataformas pelo celular facilita a exposição de crianças e adolescentes às apostas. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), de 2021, indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos. A partir dos 12 anos, o índice chega a 78%.
Uma pesquisa realizada neste ano no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação ouviu 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio. Segundo o levantamento, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Entre os alunos do terceiro ano do ensino médio, quase metade já havia feito apostas.
Outro estudo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), apontou que canais direcionados ao público infantil utilizam a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que os jovens apresentam maior vulnerabilidade porque o cérebro ainda está em processo de desenvolvimento. Segundo ela, as áreas relacionadas à sensação de prazer e à dopamina funcionam de forma mais intensa, enquanto as regiões responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em amadurecimento.
“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, diz.
Luiz Carlos, de 71 anos, começou a jogar na década de 1980, quando ainda não existiam celulares. Na época, ele frequentava locais com máquinas de videopôquer.
“Saía do jogo 4h, 5h da manhã, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lá, jogando novamente.”
Segundo ele, a principal diferença atualmente é a facilidade de acesso aos jogos.
”Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso", afirma.
A dependência também é enfrentada por outros integrantes do Jogadores Anônimos, como Rogério, de 53 anos, Rodrigo, de 47, e Carla Xavier, de 41.
Luiz Carlos está há 15 anos sem jogar. Carla e Rogério estão há mais de um ano afastados das apostas, enquanto Rodrigo não aposta há seis meses. Segundo os integrantes, a abstinência foi conquistada com o apoio da irmandade Jogadores Anônimos.
Carla relata que o grupo tem recebido principalmente pessoas que acumularam grandes perdas financeiras com as apostas e já não sabem a quem recorrer.
"[Elas] já não tem mais onde pedir ajuda. Então já estão desacreditadas da vida, já estão pensando em suicídio, estão devendo para um monte de gente. Essas são as pessoas que procuram o grupo. E, com as apostas online, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje.”
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