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Imagem: Litoral Sul FM

Lendas de Paranaguá mantêm viva a tradição oral da cidade

Da Caveirinha ao Pé Redondo, histórias populares atravessam gerações e fazem parte da identidade cultural parnanguara

Por Gabriel Galdino
03 de Agosto de 2026 às 11:40

Muito antes de se tornarem tema de livros, pesquisas e reportagens, as lendas de Paranaguá eram contadas nas rodas de conversa, entre pescadores, moradores e famílias da cidade. Transmitidas pela tradição oral, essas histórias misturam elementos religiosos, acontecimentos do período colonial e personagens misteriosos que continuam presentes no imaginário popular.
Embora não existam registros históricos que comprovem esses relatos, eles representam um importante patrimônio imaterial e ajudam a preservar a memória e a identidade cultural do município.

A Caveirinha e a lição sobre o poder das palavras

Entre as narrativas mais conhecidas está a Lenda da Caveirinha, ambientada na antiga Fonte Velha, hoje conhecida como Fontinha, um dos pontos históricos mais antigos de Paranaguá. Segundo a tradição, um escravizado conhecido por ser muito falador encontrou uma caveira encostada em uma figueira ao passar pelo antigo Campo Grande, área onde atualmente fica a região do Hotel Camboa.
Curioso, perguntou:
"Caveirinha, quem te matou?"
A resposta veio imediatamente:
"Foi a língua."
Ao voltar para a fazenda, contou a história ao senhor de engenho. Desconfiado das frequentes invenções do escravizado, o patrão determinou que todos retornassem ao local no dia seguinte. Caso a caveira não repetisse a resposta, ele seria castigado.
Diante de todos, a Caveirinha permaneceu em silêncio. O escravizado acabou sendo açoitado e morreu em consequência do castigo. Somente depois que todos foram embora, a caveira voltou a falar:
"Eu não te disse que quem me matou foi a língua?"
A narrativa é tradicionalmente interpretada como uma reflexão sobre as consequências da mentira, da fofoca e do uso irresponsável das palavras.

O Pé Redondo e o baile proibido

Outra das lendas mais populares é a do Pé Redondo.
Segundo a tradição, durante a Quaresma, um homem elegante e desconhecido chegou a Paranaguá procurando um baile de fandango. Como era um período considerado impróprio para festas religiosas, decidiu organizar seu próprio baile em um clube da cidade.
O visitante encantou todos os presentes, especialmente as mulheres. No entanto, em determinado momento, uma delas percebeu que ele possuía um pé redondo, semelhante ao casco de um bode.
Logo depois, um grande estrondo tomou conta do salão e o prédio começou a afundar. Segundo a lenda, o misterioso visitante era o próprio diabo, que teria levado os participantes da festa consigo.
Existem diversas versões dessa história. Uma delas situa o baile no antigo Clube Estevão, onde atualmente funciona um estabelecimento comercial na Avenida Roque Vernalha. Também há moradores que afirmam que o Pé Redondo ainda pode ser visto em algumas noites na região da Costeira.

As Rosas Loucas e a escolha do Rocio

A devoção a Nossa Senhora do Rocio, padroeira do Paraná, também deu origem a uma das mais conhecidas lendas de Paranaguá.
Na versão conhecida como Lenda das Rosas Loucas, pescadores observaram um facho de luz vindo do mar que terminava sobre um roseiral às margens da baía. Ao investigar o local, encontraram uma pequena imagem de Nossa Senhora coberta por gotas de orvalho.
Outra tradição popular relata que, depois de encontrada, a imagem foi levada para a antiga igreja matriz no Centro Histórico. Durante a madrugada, porém, desaparecia e reaparecia no mesmo roseiral do bairro Rocio. Após esse fenômeno se repetir diversas vezes, os moradores entenderam que aquele era o local escolhido pela santa, onde mais tarde seria erguido o Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio.

Histórias que ajudam a preservar a memória
Mais do que relatos fantásticos, essas narrativas revelam aspectos da formação cultural de Paranaguá. Muitas delas possuem origens que se misturam à religiosidade popular, ao período colonial e aos costumes das comunidades caiçaras.

Instituições como o Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP) e pesquisadores da história local destacam que essas lendas devem ser compreendidas como parte do patrimônio cultural da cidade, preservando tradições transmitidas de geração em geração, ainda que não possam ser tratadas como fatos históricos.

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