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Imagem: Minuto Rural

Paraná mantém liderança nacional na produção de seda mesmo com desafios climáticos

Estado concentra cerca de 85% da produção brasileira e busca novas tecnologias para fortalecer a atividade

Por Redação
01 de Setembro de 2026 às 16:28

O Paraná continua na liderança nacional da produção de seda, mesmo enfrentando desafios como mudanças climáticas, redução da mão de obra e impactos da deriva de agrotóxicos sobre as plantações de amoreira. O Estado responde por aproximadamente 85% da produção brasileira e é o maior produtor de casulos do bicho-da-seda da América Latina.
A atividade é desenvolvida principalmente por agricultores familiares e também se destaca pela qualidade da matéria-prima. O fio produzido no Paraná é exportado para França, China, Índia, Itália e Japão, abastecendo a indústria da moda e marcas internacionais.

Em 2025, o Valor Bruto da Produção da sericicultura paranaense chegou a R$ 34,57 milhões, segundo dados do Departamento de Economia Rural, o Deral. Dos 399 municípios do Estado, 137 participam efetivamente da atividade.
O número de produtores, porém, caiu ao longo dos anos. Segundo Oswaldo da Silva Pádua, assessor estadual do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná responsável pela sericicultura, o Estado já chegou a ter cerca de 5 mil sericicultores. Atualmente, são aproximadamente 1,2 mil.
“Isso acontece porque as amoreiras sofrem com a deriva de agrotóxicos, muita pulverização sem conscientização e a aviação agrícola, além das oscilações do clima, que geram frustração na safra para os agricultores”, explica Pádua.

As mudanças no comportamento do clima estão entre as principais preocupações para a próxima safra. As altas temperaturas afetam o desenvolvimento das amoreiras, que fornecem o único alimento das lagartas do bicho-da-seda, além de exigirem maior controle das condições ambientais nos barracões de criação.
“Uma das principais preocupações deste ano é com o clima, que tende a esquentar devido ao El Niño. Novas tecnologias precisam ser aplicadas para que as amoreiras possam se desenvolver com qualidade, até porque este é o único meio de alimentação das lagartas”, destaca Oswaldo.
Para enfrentar esses desafios, associações de sericicultores, pesquisadores, universidades, indústria, agentes financeiros, órgãos públicos e entidades do setor trabalham na implantação de novas tecnologias e capacitações.
No Noroeste do Paraná, dez propriedades foram escolhidas como Unidades de Referência para receber soluções como sistemas de irrigação em um hectare de amoreira, estações de monitoramento climático e climatização dos barracões utilizados na criação das lagartas.
A iniciativa também deverá chegar às regiões Centro-Sul e Norte Pioneiro, com previsão de implantação de outras dez Unidades de Referência.
Segundo Eduardo Venicio Libanori, técnico do IDR-Paraná, o controle da temperatura nos ambientes de criação é fundamental para manter a produtividade.
“A temperatura precisa ficar em torno de 22°C a 26°C, e a chegada de temperaturas mais altas preocupa”, afirma.

A sericicultura é considerada uma atividade de baixo impacto ambiental e tem forte participação da agricultura familiar. Uma caixa utilizada na criação pode comportar cerca de 40 mil lagartas e produzir aproximadamente 70 a 80 quilos de casulos.
Considerando valores de venda entre R$ 40 e R$ 42 por quilo, uma caixa pode representar uma receita bruta de aproximadamente R$ 2,8 mil a R$ 3,3 mil, dependendo da produtividade e do preço obtido.
Apesar disso, estima-se que cerca de 85% das famílias que trabalhavam com a sericicultura tenham deixado o setor. A recuperação da cadeia produtiva está entre os objetivos das ações desenvolvidas no Estado.
“A presença da força da extensão rural é essencial para que o projeto se desenvolva de forma integrada, com inovação e trabalho de sustentabilidade”, ressalta Oswaldo.
O trabalho envolve pesquisa pública e privada, extensão rural, universidades, indústria de seda, agentes financeiros, associações de sericicultores e a Associação Brasileira de Fiações de Seda, a Abraseda.

O Noroeste paranaense possui uma trajetória histórica na produção de seda e já chegou a responder por cerca de 60% da produção estadual. Nova Esperança é reconhecida por lei como a Capital Nacional da Seda.
Em 2025, Diamante do Sul passou a liderar a produção estadual, seguido por Nova Esperança e Cândido de Abreu.
Além da produção no campo, o Paraná possui uma cadeia industrial voltada ao beneficiamento da seda. Os casulos são encaminhados para unidades industriais, onde passam por seleção, secagem e processamento até a obtenção do fio.
Os casulos são classificados em categorias como Premium Extra, Premium Bom, Premium e Kaiten. Depois, passam por processos de secagem e avaliação para identificar possíveis alterações internas. Na sequência, são cozidos em temperaturas entre 60°C e 70°C para facilitar a liberação do fio e contribuir para sua firmeza.

A criação do bicho-da-seda, conhecido como Bombyx mori, ocorre em ciclos de aproximadamente 28 dias. As lagartas se alimentam exclusivamente de folhas frescas de amoreira e passam por diferentes fases de crescimento até formarem os casulos.
Na fase final, elas consomem grandes quantidades de folhas, exigindo alimentação constante, inclusive durante a noite. Depois de atingir o desenvolvimento necessário, sobem em estruturas chamadas de “bosques” ou montadeiras e começam a produzir os casulos.
Cada casulo pode fornecer até cerca de mil metros de fio contínuo de seda. Para produzir aproximadamente um quilo de seda bruta, são necessários cerca de cinco quilos de casulos.
Os subprodutos também podem ser aproveitados. A anafaia, formada pelas sobras de seda dos casulos, pode ser utilizada na fabricação de tecidos, cortinas e almofadas. As crisálidas também podem ser destinadas à alimentação animal ou ao consumo humano em mercados específicos.

Diante dos desafios enfrentados pelo setor, o Paraná trabalha na elaboração de estratégias para garantir a continuidade e a sustentabilidade da cadeia produtiva.
“O IDR-Paraná faz da sericicultura um de seus projetos estratégicos para aumentar a renda dos agricultores familiares, por meio do aumento da produção, da produtividade e da atuação na sustentabilidade ambiental. Pensando no desenvolvimento da atividade para os próximos anos e na viabilidade da cadeia produtiva, a equipe da Câmara Técnica da Seda estruturou um plano de desenvolvimento e sustentabilidade da sericicultura para os próximos dez anos”, explica Marcelo Garrido, chefe do Deral.
A expectativa é que a assistência técnica, a pesquisa, a inovação, o monitoramento climático, a irrigação e a climatização ajudem os produtores a enfrentar as mudanças ambientais, recuperar parte das famílias que deixaram a atividade e manter o Paraná na liderança nacional da produção de seda.

A seda produzida no Paraná abastece marcas de luxo como a francesa Hermès, utilizada em lenços e coleções de alta costura, e a Chanel, em peças de vestuário. Desde 2006, 100% da seda usada pela Hermès no mundo é paranaense.
Londrina abriga a única fábrica de fio de seda em escala industrial do Ocidente, a Fiação de Seda Bratac, primeira empresa brasileira a obter certificação orgânica têxtil.
Em 2014, a empresa produziu 432,5 toneladas de fio de seda. Das 413 toneladas comercializadas, 54,7% foram exportadas para a Europa e 45,2% para a Ásia.

Sericicultura em números
  • 85% da produção nacional de seda é representada pelo Paraná
  • R$ 34,57 milhões foi o VBP da sericicultura paranaense em 2025
  • 137 municípios do Estado participam efetivamente da atividade
  • 1,2 mil é o número aproximado de sericicultores atualmente
  • 5 mil foi o número aproximado de produtores que o Paraná já chegou a ter
  • 40 mil lagartas podem ser colocadas em uma caixa de criação
  • 70 a 80 quilos é a produção estimada de casulos por caixa
  • 28 dias é a duração aproximada de um ciclo de produção
  • 22°C a 26°C é a faixa de temperatura considerada adequada para a criação das lagartas
  • 5 quilos de casulos são necessários, aproximadamente, para produzir 1 quilo de seda bruta

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